Área Restrita

31/08/2010

Sem lazer, shoppings proliferam na Capital

Principal destino dos grandes empreendimentos do Estado, Belo Horizonte mantém 12 estabelecimentos de grande porte - 51,5% do total do Estado, segundo a Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce) -, sem contar os prédios ainda em construção e as ampliações dos já existentes.

E, nos últimos anos, as compras realizadas nos malls da cidade vêm crescendo vertiginosamente, fruto da junção de uma série de fatores, como o aumento da renda das famílias mineiras; a sensação de insegurança existente nas ruas dos grandes centros urbanos; o caos cada dia maior no trânsito; e a falta de opções de lazer ao ar livre. É o que apontam especialistas ouvidos pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO.

De acordo com a coordenadora do Departamento de Economia da Federação do Comércio do Estado de Minas Gerais (Fecomércio Minas), Silvânia de Araújo, os shopping centers encaixam muito bem no perfil do belo-horizontino, que valoriza comodidade, segurança e boas opções de lazer em um ambiente para compras.

"O mineiro em geral vê no shopping center uma forma de aliar a cultura de consumo, muito forte na sociedade atual, ao conceito de família. Em Belo Horizonte, isso se acentua mais pelo fato de a cidade não contar com muitas opções de lazer ao ar livre e de a classe média vir acumulando um poder aquisitivo maior", afirmou.

Público - Conforme Silvânia, pesquisas sobre o perfil dos consumidores desses espaços mostram que os shoppings atraem principalmente três tipos de públicos: os adolescentes e jovens, as famílias com crianças pequenas e a terceira idade.

"Os primeiros usam os locais para interagir com os amigos, como recreação; as famílias unem o consumo a opções de lazer para os filhos; e a terceira idade se sente mais segura neste tipo de ambiente", explicou.

Para a professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, Valquíria Padilha, autora de uma tese de doutorado sobre o tema, a violência urbana é um importante fator que impulsiona as pessoas a freqüentarem os malls.

"No Brasil, como em todos os países onde a desigualdade social e econômica é mais visível, a violência urbana aparece como um complexo fenômeno que acentua a degradação do espaço público e empurra as camadas privilegiadas da população para lugares mais protegidos como o shopping", afirmou.

Na avaliação da pesquisadora, a cultura do consumo nasce e se estabelece pautada nos ideais da liberdade individual de escolha, o que gera uma equação complicada do ponto de vista da política e da cidadania, uma vez que a liberdade de escolha é maior, no capitalismo, para quem tem mais dinheiro.

"Hoje o shopping center é medida de especulação imobiliária, visto que morar perto dele normalmente oferece certo status. Além disso, a possibilidade de passear enquanto se faz compras, abrigado do sol, da chuva ou do frio, também ajuda para o sucesso da fórmula do que chamo de shopping center híbrido", explicou.

Para a pesquisadora, o hibridismo está no fato de o shopping se chamar "centro de compras" e, no entanto, ser uma nova cidade que reúne compras de mercadorias e também de lazer, serviços, cultura e alimentação.

Proteção social - Para o urbanista do Instituto Horizontes, Rodrigo Ferreira de Andrade, as populações de grandes cidades como Belo Horizonte, principalmente as de classes sociais mais altas, veem nos shoppings locais onde há de "tudo um pouco", que possibilita uma sensação de proteção social.

"São locais onde as pessoas, quando entram, perdem a noção do tempo. Não sabem se é dia ou noite, esquecem das horas. E dentro daquela bolha podem se entregar ao consumo", afirmou. Segundo ele, a construção arquitetônica do local favorece isso, já que o piso é liso e sem desnível entre corredores e lojas dá sensação de conforto.

De acordo com dados da Abrasce, Minas Gerais já ocupa a terceira posição no ranking brasileiro de shopping centers, com 33 malls, perdendo apenas para São Paulo, que ocupa o primeiro lugar com 130 estabelecimentos, e para o Rio de Janeiro, que tem 48. Além disso, conforme uma pesquisa da entidade, o público belo-horizontino é o que mais tempo permanece em shoppings: totalizando uma média de 94 minutos.

Para o presidente da Associação Mineira de Shoppings Centers (Aloshopping), Marcelo Henrique de Almeida, o predomínio dos shoppings sob as lojas de bairros na capital mineira é uma realidade que não deve ser mais alterada. "Mesmo sendo mais caro para o lojista manter um estabelecimento comercial em um mall, esse tipo de negócio vem crescendo muito. E a tendência é que continue assim por muito tempo, avaliou.

Fonte: Diário do Comércio, publicado em 31 de agosto.


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