Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP) constatou que 52% das famílias paulistanas ficaram endividadas este mês, o maior nível dos últimos 12 meses. Simultaneamente, as operações dos bancos com crédito consignado com servidores públicos e iniciativa privada somaram R$ 114,8 bilhões e o crédito em poder das famílias alcançou a R$ 502 bilhões, aumento de 30% em 18 meses, ou um terço do crédito total do Brasil. Isso sem contar com os empréstimos habitacionais subsidiados pelo Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e da poupança, que somam mais R$ 100 bilhões. Já os desembolsos para as empresas avançaram menos de 5% e somam hoje R$ 499 bilhões. Isso significa que a maior parte desses recursos está sendo usada para financiar o consumo, em vez de investimentos e capital de giro. A proporção de famílias com contas em atraso também aumentou em julho, para 15%, ante 13% em junho, bem como a de famílias inadimplentes, de 4% em junho para 6% em julho. Em São Paulo, há 531 mil famílias com contas atrasadas e 220 mil, inadimplentes. Dessas, 56% estão sem pagar há mais de 90 dias suas contas e 25% até 30 dias (média de 65 dias). No restante do país, especialmente nos grandes centros, o quadro é parecido, segundo o Banco Central.
Passada a fase aguda da crise financeira eclodida em setembro de 2008, o governo tomou algumas medidas para melhorar o consumo interno: desoneração tributária, maior crédito pessoal e diminuição do compulsório. Isso facilitou as compras para as pessoas físicas. Como as emergentes classes C e D estavam sendo incorporadas ao consumo, elas foram às compras com volúpia, adquirindo a chamada linha branca (geladeira, máquina de lavar roupa e micro-ondas). As viagens ao exterior (US$ 1 bilhão em julho) também colaboraram com o endividamento familiar. A facilidade de o crédito ter seus limites ampliados e não apenas aqueles vinculados à ficha cadastral dos pagadores de prestações, como ocorre com os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) – cerca de 24 milhões de pessoas – também ajudou. No cheque especial e nos cartões de crédito, estão os juros mais altos, algo nunca menos de 7,25% ao mês.
Ante a uma inflação projetada para 5,3% este ano, os bancos se defendem alegando custos embutidos (inadimplência, depósito compulsório, despesas administrativas e afins). O endividamento reflete os bons resultados da economia brasileira, como a elevação do emprego formal, da massa de rendimentos e do crédito. Contudo, a intenção de consumir das famílias segue em alta, depois do Dia dos Namorados e da Copa do Mundo, às vésperas do Dia dos Pais (segundo domingo de agosto), o que certamente vai causar mais elevação do endividamento familiar, mesmo com o aumento da taxa básica de juros (Selic) para 10,75%. Até certo ponto, isso é bom, mas todo o cuidado é pouco para evitar o rompimento da capacidade para quitar as dívidas.
Fonte: Estado de Minas, publicado em 29 de julho.
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